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Entrevista
com HELENA AVELAR
DO
ESPAÇO
ASTROLOGIA
P-
Como jornalista de profissão e estando habituada a lidar
com factos
concretos e realidades palpáveis, como encarou a sua
entrada num mundo
tão diferente como é o da Astrologia?
R-
A Astrologia entrou na minha vida muito antes do
Jornalismo. Na verdade,
não me lembro de alguma vez ter "descoberto" a
Astrologia. Diria que
sempre esteve lá.
Desde que me recordo que me senti motivada para aprender e
estudar os
mais diversos ramos do conhecimento. Logo em pequena, por
razões de
família, tive contacto com os mais variados tipos de
conhecimento, em
especial nas áreas do Simbolismo e Mitologia.
Por tudo isto, nunca dei por mim a encarar as coisas dessa
forma
dualista: por um lado o Jornalismo, por outro a Astrologia.
Estão em
planos distintos e dão-nos "ferramentas" para
compreender diferentes
aspectos da realidade.
Além disso, a Astrologia, mesmo tendo em conta a dimensão
transcendente,
não é assim tão vaga e impalpável. É uma linguagem
simbólica, uma forma
de compreender o mundo e a vida e isso tem reflexos muito
práticos e
imediatos.
Por outro lado, o jornalismo também não será assim tão
objectivo,
concreto e racional como à primeira vista se poderia
julgar...
P-
Falando agora do STELLIUM2002, como analisa os resultados
do recente
Encontro Nacional de Astrólogos realizado em Abril
passado? Considera
que foram atingidos os objectivos propostos? Que futuro
tem a curto ou
médio prazo a falada Federação Nacional do sector?
R-
Considero que o Stellium atingiu plenamente os seus
objectivos: reunir e
pôr em diálogo várias perspectivas e estilos de
abordagens da
Astrologia. Os astrólogos convidados responderam com
entusiasmo e
apresentaram palestras muito interessantes.
O diálogo entre profissionais foi, aliás, o que nos
motivou, a mim e ao
Luís Ribeiro, a lançarmo-nos nesta aventura. O resultado
é ainda mais
positivo se considerarmos que nenhum de nós tinha
qualquer experiência
prévia em matéria de organização. Face aos resultados
positivos, eu e o
Luís resolvemos fazer um novo encontro, no próximo mês
de Março, onde
para além dos astrólogos portugueses, vamos também
convidar alguns
astrólogos profissionais estrangeiros.
Será uma nova aventura, onde procuraremos fazer mais e
melhor.
Procuraremos sobretudo ir ao encontro das expectativas de
todos os que
compareceram no encontro e que tanto nos apoiaram.
Quanto à suposta federação, não sei que futuro poderá
ter. Não sei,
sequer, se no presente momento será desejável constituir-se
uma.
O que me parece importante é que as pessoas que trabalham
seriamente
nesta área tratem de manter um alto padrão de qualidade,
quer a nível
técnico quer a nível ético.
Esta qualidade estabelecerá um contraste óbvio entre os
profissionais e
os "astrólogos de ocasião" que infelizmente
grassam no nosso actual
panorama.
Trata-se de uma tarefa contínua: há sempre algo mais a
aprender, novas
experiências a compartilhar, novos níveis de
aprofundamento a atingir.
Isto pode ser feito individualmente ou em situação de
partilha com
outros profissionais.
Esta aposta no estudo, na pesquisa e no desenvolvimento
pessoal é, a meu
ver, bem mais importante que a constituição de um
organismo oficial.
É que a tal federação, por si só, não nos trará uma
Astrologia de
qualidade, trará apenas um nome, um estatuto oficial.
A qualidade da Astrologia depende, antes do mais, da
qualidade do ser
humano que a pratica, ou seja, do seu grau de auto-consciência.
E isso
aperfeiçoa-se, melhora-se, trabalha-se continuamente,
dia-a-dia, durante
toda uma vida. Não tem de acontecer, necessariamente, no
contexto de uma
federação.
P
Tendo em atenção o modo como a Astrologia vem sendo
divulgada ao longo
dos tempos, o que aconselharia a fazer a alguém que a
quisesse estudar
numa perspectiva mais de acordo com a nova realidade que
ela apresenta?
R-
Perante o actual panorama, onde as abordagens sérias
escasseiam e a todo
o momento deparamos com situações de deplorável mau
gosto, julgo ser
importante haver uma boa capacidade de escolha pessoal.
Há que estar atento às novas experiências e
perspectivas e, ao mesmo
tempo,
cultivar um saudável sentido crítico. Para complementar,
seria ideal se
existisse também no estudante uma clara intenção de
usar de forma ética
os conhecimentos que adquirir.
Estando salvaguardados estes pontos, cada pessoa pode
escolher, dentro
dos muitos trabalhos já feitos, uma linha de abordagem
mais de acordo
com os seus objectivos e formas de estar.
Quem procura uma abordagem geral e o auto-conhecimento,
poderá escolher
obras de carácter mais geral e ser auto-didacta. Os que
querem um estudo
mais profundo deverão inscrever-se numa das escolas
existentes e
complementar os seus estudos pessoais com algo mais
organizado.
P-
Numa consulta, que regras deve seguir o astrólogo, ao
lidar com uma
situação "desesperada" do consulente? Em sua
opinião como pode o
astrólogo concorrer para o seu próprio crescimento, sem
descurar as
necessidades (a evolução) do Outro?
O que é mais fácil, ser um bom ouvinte ou um "adivinho"?
Qual atitude
mais correcta e porquê?
R
Existe uma ideia que me parece fundamental para todos os
que querem vir
a ser astrólogos e que foi apresentada de forma magistral
por Dane
Rudhyar: "Ninguém pode compreender a Astrologia ou
interpretar um mapa
acima do seu próprio nível de consciência".
Assim, a qualidade do nosso trabalho como astrólogos
depende, antes do
mais, do nosso nível de auto-consciência. Não se põe,
portanto, a
questão em termos de escolha entre as necessidades do
astrólogo e as do
consulente. Pelo contrário: fazem parte de um mesmo
processo de
crescimento que é, e resto, comum a toda a Humanidade.
Costumo dizer que
a situação de consulta é interactiva: dá-se a recebe-se,
ensina-se e
aprende-se.
Quanto a regras práticas alguns conceitos essenciais:
empatia, respeito,
partilha. Ou, se preferirmos, fazer aos outros o que
gostaríamos que nos
fizessem a nós.
Há que fazer da consulta de Astrologia um momento de
verdade e de
aprendizagem mútua, e não um julgamento ou um exercício
de poder.
Importa saber ouvir, para depois poder dar uma resposta
que faça sentido
para aquela pessoa, para aquela vida, e que não seja mais
um lugar
comum.
O ideal seria que cada astrólogo juntasse aos seus
conhecimentos
astrológicos uma formação em Aconselhamento e, é claro,
um bom nível de
integração pessoal.
P-
Ao considerar a necessidade e interesse em aprofundar o
estudo da
Astrologia Esotérica(Alice Bailey) não se está a "espiritualizar"
a
Astrologia, saindo ao mesmo tempo do estudo
"normal" da disciplina?
R-
A resposta à sua pergunta passaria por esclarecermos o
que é, para cada
um, o estudo "normal" da Astrologia.
Pessoalmente, não considero que a chamada "Astrologia
Esotérica" seja
uma área aparte na Astrologia, E isto por uma razão: a
Astrologia é uma
só. Essa suposta dualidade, que existiria entre a
Astrologia Esotérica e
a Astrologia "normal", não-Esotérica é, a meu
ver, fictícia.
Seria o mesmo que dizer que existem pessoas espirituais e
pessoas
não-espirituais. Fará isto sentido? O simples facto de
sermos humanos
torna-nos também seres espirituais. Faz parte da condição
humana, mesmo
para quem não tem a noção consciente da sua própria
espiritualidade.
Não me parece que exista uma separação mas antes uma
continuidade na
nossa percepção, e isso aplica-se à abordagem astrológica,
tal como se
aplica a todas as outras experiências de vida.
Isto não quer dizer, no entanto, que defenda uma
Astrologia vaga, pouco
estruturada, confusa e avessa ao estudo. Pelo contrário:
um bom
conhecimento dos princípios básicos e das técnicas é
fundamental e deve
ser sempre uma meta prioritária.
Não defendo as abordagens "intuitivas" que,
muitas vezes, procuram com
supostas "iluminações" colmatar falhas graves
de conhecimento. Por outro
lado, também não defendo uma Astrologia tecnocrata,
mecanicista, focada
na previsão dos factos, sem empatia e sem qualquer percepção
das causas.
O que procuro praticar em consulta, e ensinar aos
estudantes, é a fazer
uma ligação bem sucedida entre o estudo astrológico mas
"técnico" e a
noção do transcendente. A meu ver, o papel mais nobre da
Astrologia será
sempre o de devolver a cada ser humano a noção de
totalidade e de
participação no Todo.
Esta noção pode ser transmitida de uma forma simples,
natural, sem poses
nem frases-feitas. E, acima de tudo, sem estabelecer uma
separação
artificial entre a parte espiritual e a não-espiritual da
vida.
Esta é, aliás, a razão pela qual eu e o Luís
escolhemos o nome
"Astrologia Integrada" para o nosso curso: o que
importa é integrar as
diversas abordagens num todo funcional, em vez de nos
perdermos em
catalogações e dualidades.
P-
Até que ponto pode e deve, ou não, a Astrologia
desvendar o Karma
pessoal e as Vidas Passadas, ajudando, deste modo, na
busca, do
objectivo actual, de cada um de nós?
R-
Para lidar com as chamadas questões "kármicas"
é preciso ter duas coisas
fundamentais: sensibilidade e bom-senso, qualidades que,
aliás,
considero indispensáveis no actual panorama esotérico.
Comecemos por colocar algumas questões ditadas pelo
bom-senso:
Será a questão das vidas passadas assim tão linear?
Será que podemos mesmo "ver" as vidas passadas,
com pormenores
concretos, cenários e datas? Ou perceberemos antes padrões
gerais,
emoções que se sentiram, linhas de força que simbolizam
determinadas
experiências?
E, de tudo o que percepcionamos, quanto devemos dizer à
pessoa? Será que
a nossa forma de ver, necessariamente limitada e parcial
(e mesmo o
melhor dos astrólogos, continua a ter as limitações
humanas), vai de
facto ajudá-la?
Se o saber estas coisas ajuda, porque não nascemos nós
com essa
recordação? Não será melhor recordar-nos
espontaneamente, quando chegar
a altura certa?
Voltando à questão: o que se pode dizer e como?
Numa situação de consulta, se estivermos perante uma
pessoa equilibrada
e se houver contexto para isso, podemos falar dos padrões
enraizados,
que se manifestam a nível do comportamento das emoções
e do pensamento e
que, muito provavelmente, são reflexos de vidas passadas.
O que é
importante é fazer esta abordagem num contexto positivo,
tranquilo,
construtivo e, obviamente, isento de julgamentos ou revelações
bombásticas.
Contudo, na maior parte dos casos, estaremos a fazer
melhor serviço à
pessoa se a ajudarmos a centrar-se no Aqui e no Agora e a
motivarmos a
fazer o melhor possível nas actuais circunstâncias da
sua vida.
Claro que o momento presente é resultado de acções e
situações passadas,
desta ou de outras vidas. Contudo, de nada serve evocar
vidas anteriores
fora de contexto ou fazê-lo só porque a pessoa insiste
em querer saber.
Na verdade, pode até ser muito prejudicial, pois às
pessoas mais
sensíveis traz confusão, excesso de informação e até
sentimentos de
culpa por supostos males feitos em vidas passadas.
Escusado será dizer que nunca, mas mesmo nunca, deve o
astrólogo dar
informações, ainda que verdadeiras, sobre vidas passadas
apenas para
impressionar a pessoa que tem à frente. Estas supostas
demonstrações de
"sabedoria" e "poderes especiais", que
têm como objectivo a
auto-glorificação e o poder, são completamente
desaconselhadas, como é
óbvio. Trata-se dos piores exemplos de abusos feitos em
nome da
Astrologia.
P
No caso de os conhecer, o que pensa sobre os livros de
Paulo Coelho(O
Alquimista/As Valquírias/O Diário de um Mago) e os de
Brian Weiss
(Muitas Vidas, Muitos Mestres/O Passado Cura/A Divina Sabedoria
dos Mestres)?
Quais as mensagens "novas", que em sua opinião,
os seus autores nos
querem transmitir?
R-
São livros interessantes, de divulgação popular, que
parecem estar a
sensibilizar um enorme número de pessoas para uma
primeira abordagem das
questões de teor esotérico. Para muitas dessas pessoas
poderão até abrir
caminho para o estudo aprofundado e sério destes temas.
Para alguns, poucos, podem até ser o ponto de partida
para uma
verdadeira jornada interior.
Quanto às mensagens "novas" que transmitem...
serão mesmo novas? Ou
estaremos antes a falar de um novo olhar sobre os temas
intemporais?
P-
Falando de "livre arbítrio", considera ou não
que ele existe? Se sim,
como explica que estejamos, sempre, limitados por certos
parâmetros?
Então onde é que ele existe?
R-
Mais uma vez surge a questão da dualidade...
Para entendermos melhor essa suposta polarização entre
limitação e livre
arbítrio temos de ter em conta um terceiro factor,
porventura o mais
importante e decisivo: a auto-consciência de cada ser.
Vemos assim que onde falta a auto-consciência prevalece o
condicionamento e a limitação. Por outro lado, quando
começa a haver
alguma percepção da própria individualidade, começa a
surgir uma pequena
margem de liberdade, que se alarga a pouco e pouco.
Em poucas palavras: onde não há auto-consciência também
não há
livre-arbítrio; onde há auto-consciência não precisa
de haver
livre-arbítrio.
É claro que teremos sempre alguns condicionamentos: o das
leis naturais,
o da cultura em que se vive, o da família, o da
hereditariedade, etc.
enquanto estivermos neste plano físico, haverá sempre um
certo grau de
limitação.
Mas quando se dá um despertar interior (a que alguns
chamam processo de
individuação e outros designam por crescimento
espiritual) começa aos
poucos a haver uma maior capacidade de escolha, uma maior
noção das
causas e consequências e, paralelamente, uma maior noção
de
responsabilidade.
É nesta perspectiva que podemos olhar a Astrologia como
um poderoso
auxiliar neste processo de crescimento: em vez de se
prender a
fatalismos ou de devanear em alusões vagas, a Astrologia
pode ajudar a
compreender os objectivos, os tempos e as etapas de cada
processo
individual.
É interessante verificar que, à medida que o processo
avança, dá-se
também uma reformulação do próprio conceito de
liberdade. Assim, o
livre-arbítrio que tanto procuramos no início será,
muito provavelmente,
repensado à medida que nos aproximamos de uma nova fase
de consciência.
Podemos imaginar até que, numa pessoa verdadeiramente
consciente e
desperta, a questão já não se ponha em termos da
dualidade. A partir de
um determinado grau de integração, pode ser que até
essa questão deixe
de fazer sentido...
P-
O que há de diferente no estudo da Astrologia Integrada,
que se aprende
no Espaço Astrologia? E qual é, para si, o aspecto mais
importante que
poderemos encontrar no estudo da Astrologia Relacional?
R-
Trata-se de duas coisas
distintas.
A Astrologia Integrada, designação criada por mim e pelo
Luis Ribeiro,
é acima de tudo uma atitude perante o conhecimento astrológico.
Não se
trata de um novo ramo, mas antes de uma forma de abordagem
à Astrologia
que procura integrar num todo funcional, os vários ramos
e abordagens.
Escolhemos a designação "Curso de Astrologia
Integrada" porque
defendemos que a Astrologia é uma só, um campo de
conhecimento
suficientemente vasto, articulado e coerente para incluir
vários ramos e
abordagens.
Assim, em vez de inventar novos rótulos (tantas vezes
desadequados e
gratuitos) procurámos integrar e compreender esse
conhecimento como um
todo. Procuramos por isso ensinar vários ramos e
abordagens de forma
abrangente e completa, sem contudo desvirtuar o que existe
de específico
em cada um.
A designação integrada aplica-se também numa outra
perspectiva:
acreditamos que a Astrologia só se aprende
verdadeiramente se for
experimentada, vivida. Vemos a Astrologia como um
conhecimento que vai
muito além da simples "descrição da personalidade"
e das populares
"previsões": é uma forma de auto-conhecimento
profundo, que promove o
crescimento interior e a auto-consciência.
Por outro lado, a Astrologia Relacional é uma área específica
da
Astrologia, que se debruça sobre o estudo das relações
humanas: entre
casais, pais e filhos, amigos, colegas de trabalho,
professores e
alunos, etc.
Este estudo ajuda-nos a entender a dinâmica dos
relacionamentos,
realçando os pontos fortes de uma relação e despistando
os possíveis
pontos de atrito.
Permite-nos compreender como é que funciona um
determinado
relacionamento. Nesse sentido, promove a compreensão e a
tolerância.
Importa realçar, contudo, que a Astrologia, por si mesma,
não nos diz se
o relacionamento vai ser para sempre ou se vai ser feliz.
Isso é, e será
sempre, tarefa e responsabilidade de cada um dos parceiros.
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